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16.1.09

Conto

mto menos eu

Foi a vocalista da banda que ligou. Ainda bem, porque, sendo ela vocalista, presume-se que, dentre os integrantes da banda, seja ela a dona da voz mais agradável, o que a torna, consequentemente, a mais indicada para se conversar pelo telefone.

“Mandamos a gravação”.

“Para o email certo, dessa vez?”

“Como assim, para o email certo, dessa vez?, a gente tinha mandado antes?”

“Eu pedi para um de vocês mandar para o email da agência”.

“Lou não me disse nada, além disso: mandamos a gravação, avise o cara”.

Consequentemente, a vocalista não é mais a pessoa mais indicada para se conversar ao telefone.

Cliquei duas vezes no ícone do Netscape, um navegador alternativo ao Internet Explorer, mas o mouse deve ter clicado sem querer e abriu uma janela do Msn. Era uma conversa que terminava com mto menos eu Última mensagem recebida em (...). Muito menos eu, tipo assim: o problema não é seu se os caras não são capazes sequer de mandar a gravação para o email certo? Muito menos meu! Se vira, estagiário desgraçado comedor de lixo. É, foi mais ou menos assim que eu me senti.

E de repente eu estava imaginando como será que deve ser a vida de uma vocalista. Ela fica lá, cantando e cantando e cantando, ou então ela não faz porra nenhuma além de beber, fumar e ameaçar caras mais importantes do que ela, aí ela seria mais celebridade do que vocalista; mas a parte importante é só o sexo mesmo, então, indiferente. Tem 53 horas de músicas ininterruptas no playlist do meu Winamp e eu nunca ofereci nenhuma música para o mundo. Isso é quase tão pesado para minha consciência quanto não ter plantado uma árvore e imprimir duas resmas de papel por dia. Isso é quase tão triste quanto ser estagiário em uma empresa f.d.p. que não respeita nem mesmo seus clientes, quanto mais seus empregados.

Mas a conversa não era sobre isso. Era sobre política. Eu disse que não acreditava numa só palavra que um deputado dissesse na tevê, e aí esse meu amigo respondeu mto menos eu Última mensagem recebida em (...). Ele concordava comigo, percebe? Não era ele mandando eu me ferrar. Ele concordava comigo.

7.1.09

Conto

Dom Casmurro às avessas

Pela primeira vez chorei. Os homens devem ter achado esquisita a forma como os abandonei à mesa. É evidente que não havia cheiro de fumaça e nem nada no forno que pudesse estar queimando, como aleguei, e é evidente também que não tenho idade para já sofrer de alucinações. Aguardaram em silêncio o meu regresso da cozinha, mas, como nada acontecia, deram de ombros e continuaram sua discussão entusiasmada, que escutei detrás das paredes. “Logo ela volta! Capitu, quando cisma, cisma. E pronto”.

Sempre que o meu Bentinho traz Escobar para almoçar conosco, sinto um algo que não sei explicar. Escobar é gentil e muito atraente. Cuido que até teria vindo perguntar o que me acometia, se não estivesse tão envolvido com a insistência de meu marido: “Não é nada, Escobar. Logo ela volta. Fique, fique”. Estarei com ciúmes? De mulher alguma, nenhum pensamento como este veio me importunar. Sei que tenho Bentinho preso a mim, quase que nascemos juntos. Mas Bentinho não é meu, é de Escobar.

Bentinho o ama. Algumas noites, até ouço da boca dele a pronúncia indubitável do nome de Escobar. E não me ofendo, sinceramente. Mas aí, quando vejo os dois à mesa, conversando sobre o tempo no seminário e expondo, em cima do meu orgulho, que tiveram uma grande história juntos, quase uma aventura épica e juvenil, sinto este algo; um misto de antíteses. Por um lado, me vejo como uma pedra no sapato, sempre ali, atrapalhando o momento mágico dos dois. Por outro, e esse é o comportamento mais intrigante que meu coração jamais teve, sinto-me necessária para um convívio saudável entre os dois. Escobar casou-se primeiro. Tenho, ainda, convicção suficiente de que ele não tem sentimentos por Bentinho, além de estima e companheirismo. Mas meu marido ama esse homem como nunca poderá amar a nada e a ninguém. Nem mesmo a mim, sua esposa, nem mesmo à mãe.

Escobar ou não vê, ou finge que não vê. Certa estou apenas de que não corresponde. É nítido por seu postar-se à mesa, até por certa frieza. Mas, e Bentinho... saberá que ama? Saberá ele que, apesar de toda a afeição que temos um pelo outro, não fomos feitos para compartilhar-mo-nos? Já não sei o que faço.

Por esses dias, Sancha e eu conversávamos como de costume, mas notei-lhe certa insatisfação, não sei por quê. Fez uma pergunta estranha, apesar de aparentemente relutar muito. Falava-me: “E Santiago? Estão bem? Digo, tu e ele?”. Não entendi como a pergunta veio a calhar numa discussão que, até então, parecia-me amena e sem profundo envolvimento de ambas. “Sim, Sanchinha. Estamos muito bem...” Não foi suficiente. Continuou: “Refiro-me ao casamento. Era mesmo o que vocês queriam? Digo isso porque eu mesma me pergunto, às vezes. Sem filho, então!”. Realmente, um filho fazia-me muita falta, mas ainda assim fiquei perplexa. Só pude concluir que Sancha estava insatisfeita com Escobar por algum motivo, que não me cabe saber, claro.

Mas então seria o fim. Se o casamento dos dois amornasse, o que restaria do meu? Os problemas de Sancha não são, absolutamente, meus. Mas todos os problemas de Bentinho resumem-se a Escobar. Se Sancha não trata bem a Escobar e Escobar não mais tem interesse por Sancha, é capaz de Bentinho se tocar e largar-me de vez. Mesmo que só em pensamento. Só quero o bem ao meu marido, mesmo que para isso seja preciso que eu me afaste. Mas não posso ser feliz com este dilema. Amanhã mesmo, conversarei com Escobar. Não entregarei o jogo, só quero sondar os pensamentos dele, levantar hipóteses. Mas espero que Bentinho não descubra que eu fui ter com Escobar, porque, senão, é capaz de ficar de ciúmes...